De mãos dadas em praças digitais
Fortaleza é cidade apressada, dessas que se inventam moça com vontade de viver. Com perfumes de pós-modernidade, brinca de futuro e projeta-se, ansiosa, em direção a um tempo que nem sabe se será seu. Quer manter-se jovem, bonita e com os frescos ares da última moda. Corre, cresce e vertiginosamente se transforma, sem dar-se conta. No entanto, há quem a observe silenciosamente e tente apreender, no dez por quinze do retrato, a beleza que escapa ou se renova. Aqueles que insistem em fotografá-la percebem, então, como a luz derrama-se na face da jovem de 285 anos.
Fotografar uma cidade é paquera com perigo de romance. O encanto chega feito vento de setembro, fazendo cócegas na pele de quem andava de cabeça baixa, sem ver as cores da Fortaleza. Alguns se apaixonam enquanto está distraída, de rosto lavado, com ar de província e cadeiras no meio da rua. Maquiada, consegue seduzir quem se conforma com a superfície. Outros se deixam arrebatar no meio do sol quente, quando saem correndo apressados de um trem e entram em um ônibus lotado, mas com janelas que emolduram seu rosto mutante. Na beira do mar, em pontes, parques ou praças, sob o relógio que descansa e não deixa o tempo passar. Amor também chega quando a luz solar vai embora e dá passagem ao vermelho de fim de tarde. Todos acrescentam, aos tons equatoriais que banham a metrópole, tintas de um olhar apaixonado.
Os amantes da Fortaleza são jovens fofoqueiros. Para acompanhar o ritmo da cidade que cresce, mas não quer envelhecer, se encontram em comunidades virtuais. O Flickr, vinculado ao Yahoo!, é uma das principais redes sociais de postagem de fotografia – entre outras como Facebook, Orkut, Fotolog, Picasa, Twitipic, Tumbrl, etc. Quantas fotografias seriam necessárias para falar de uma cidade? Em um grupo intitulado “Fortaleza/Flickr’s”, do qual faço parte, havia 610 membros que já tinham postado 8.887 imagens, até o dia 16 de março. Fotógrafos profissionais e amadores compartilham, digitalmente, fragmentos dessa complexa cidade.
Nas calçadas virtuais, penduramos os instantes de amor e ódio para quem quiser ver. Às vezes é como andar de mãos dadas no meio da praça. Narramos, em pixels, não apenas os sorrisos de satisfação, mas também as brigas e as picuinhas. Há, ainda, os magoados que expõem as feridas que ela tanto tentou esconder. Talvez exibam suas mazelas como se dissessem: “não se envergonhe, mocinha. Se ajeite!”. É porque quando a gente ama uma cidade, também está buscando gostar de si.
Para falar de amor não há fórmula e muito menos velocidade, profundidade de campo ou enquadramento corretos. Quem apressadamente condena o excesso, o voyeurismo, o espetáculo, não atenta para a chance de conhecer as várias Fortalezas que transbordam em uma só. Fotografar esta cidade é jogo, sedução, sorriso. É a possibilidade de inventar diversos mapas para um mesmo território.
Em seu álbum virtual, cotidianamente ampliado, Fortaleza vai colecionando afetos. Poderá olhar pra si, amanhã ou em décadas, e surpreender-se. Talvez perceba que o tempo é mágico ao ver, no retrato, a beleza de suas jovens rugas.
Iana Soares
![[Perfil que abre esta entrevista na Revista Entrevista nº24]
SILAS JOSÉ DE PAULA
Em um mosaico inventado,
a vida revela-se em instantes
de luz, olhares, escolhas e afetos
Por Iana Soares
Lá no começo, ao fotografarmos a vida com a retina dos nossos olhos, não sabemos ao certo a imagem que se fixará nas linhas da palma da mão. O obturador, para que entrem luz e histórias, vira portal. Deve-se ajustar bem o diafragma para entender a profundidade das coisas. A vida, então, revela-se em instantes. Silas José de Paula não se tornou fotógrafo com a primeira câmera, e sim ainda menino, quando deitou os olhos sobre o mundo e escolheu viver, intensamente, cada fotograma. As páginas que vêm a seguir surgem como fotografias esparramadas na mesa do centro da sala, que tocamos na tentativa de apreender um pouco da vida que ficou, nelas, impregnada.
No primeiro retrato, temos entre os dedos um senhor de cabelos brancos cortados (nem curto, nem comprido) e barba feita (que emoldura o rosto há 40, dos quase 60 anos dele). A camisa lilás aparece dobrada na altura dos cotovelos, como se acostumou com o passar dos anos. Tem as pernas cruzadas, os braços bem abertos para mostrar alguma coisa e uma postura levemente curvada, e ainda assim elegante. É possível – tente – ouvir a voz desse capixaba, cuja melodia oscila entre os tons mineiros e cariocas, com leves notas cearenses.
Afastando o que está na superfície, surge um menino de 12 anos que se candidatou a padre. Não por vocação, mas pela vontade de sair do Castelo e correr o mundo. Essa imagem traz, em si, as gargalhadas dos garotos que roubavam a comida dos padres na madrugada. À autoridade, à disciplina, ao moralismo e às agressões físicas dos religiosos, respondiam com bolas de gude na escada. O riso de hoje aprendeu a rir naqueles dias que não eram fáceis nem difíceis.
Depois do Seminário, desaprendeu a rezar todas as orações, mas, nesta outra fotografia, podemos vê-lo sussurrando o que chama de mantra, pedindo a quem quer que seja que proteja sua “flor” e seus três filhos. Religioso sem Deus, inventou as próprias crenças. A maior delas: ser professor. Exerce tal ofício com devoção, mas não é santo e odeia que lhe digam amém. É ator, performer e palhaço do circo que inventou. Com uma generosidade egoísta, ensina porque quer aprender. Ultrapassando as salas de aula, reúne em torno de si jovens que também querem brincar com a luz.
Aos que esperam cordialidade e bons modos, responde com um dedo na cara. Não por má-educação, e sim porque o sangue ferve. A veia da loucura, uma que tem na lateral esquerda da testa, lateja e explode em reações inesperadas, aumentando a saturação da pele rosada. Não saia correndo, insista. Contrarie, discuta. É no conflito que ele encontra a paz. Não em brigas bobas, mas naquelas que transformam, a ele e ao mundo. Da cara fechada, a priori, logo surgem risos e sorrisos que inundam o 10x15 do retrato.
No meio de tudo, surge o “maluco” em uma daquelas fotografias que arranca um sorriso, por identificação ou estranhamento. Vizinho de Woodstock, “apertador de cu de galinha”, aspirante a fotógrafo de cinema. Os mais desatentos não verão a relação entre o primeiro retrato e este. Os que enxergam com o coração podem ver, sim, que o maluco ainda está por lá. De camisa de botão, mas menino para o resto da vida.
Silas José de Paula é um convite a viver a vida com uma alegria sem tamanho. A debochar do medo, não só por arrogância, e sim por coragem. “Na realidade” – como costuma pontuar suas frases, junto com um “tremendamente” –, carrega paixão por tudo que faz. E, se não tem paixão, não faz, troca, muda, pára, vai embora. Volta. A fotografia, sua companheira de estrada, sabe bem o que é isso. Hoje, depois de tantos prêmios e trabalhos, diz que quer ser o fotógrafo que nunca foi.
A última fotografia é sua, leitor. Não é a mais verdadeira, como nenhuma destas é. Esta página é um instante congelado. Um momento “imaginário”. Uma imagem possível. Mas preste bastante atenção nos olhos dele. Tal qual uma fotografia envelhecida, seus olhos hoje têm a cor que o tempo deu. Não são nem verdes, nem castanhos. São do tom que a vida fez. Quando olhamos lá dentro deles, é possível sentir a força que têm, porque ainda vibram. O papel envelhece, o que foi fixado não.](http://25.media.tumblr.com/tumblr_lmjj4oeceM1qck1fko1_500.jpg)
![Nota fragmentada do caderno:
“…eu que viro cidade pra te receber”.
[Aeroporto Pinto Martins.Fortaleza.Ce]](http://24.media.tumblr.com/tumblr_ldnf0z8iJm1qck1fko1_500.jpg)
![[19.10.2010. Conexão em Brasília . Quase 16h . Transcrição exata das coisas do caderno]
“Tem alguien aqui?”, mistura. O vizinho é um rapaz latino-americano, entre 25 e 30 anos, piercing no nariz e em mais algum outro lugar que não arrisco verificar pra não dar de cara, toda errada. Talvez seja na sobrancelha direita, porque olhei agora e não vi. Tem um caderninho de anotações na mão. Passa de folha sem parar até que escolhe uma pra ficar olhando e olhando. É a segunda vez que me apaixono hoje. O primeiro pegou um vôo da Tam e não esse da Webjet - que, como disse um outro passageiro, “é uma empresa muito pobre, porque não se serve água com amendoim pra ninguém”. Só para elefantes de desenho animado, emendei.
Eita! Tive a impressão de ver “lambe-lambe” no bloquinho dele. O coração disparou. Coisa feia olhar assim por cima do ombro, mas foi coisa do destino, cena de filme. Sempre acontece alguma coisa em filmes que começam em avião.
Tem dois carecas na minha frente, daqueles engraçados com dobrinhas gordinhas na parte de trás. Dá vontade de apertar com o indicador e o polegar. Vai subir. Roudou e parou de repente. Deve ser a hora da carreira.
Ele fez algum sinal como quem entrega tudo a Deus e agora está cantando e assoviando. Resolvi cantar baixinho a música que, na boca dos Tremembé, é reza… “não tem rio que eu não atravesse, não tem caminho que nós não ande, não tem pau que eu não arranque, não tem pedra que eu não quebre e nem tem mal que nós não cure… Eu venho lá das cachoeiras, com a força da natureza… os encantados nos mandou, viemo aqui fazer limpeza…”. Era a canção que me vinha à memória antes das cirurgias. Sempre deu certo. Podia ensinar pra ele. Agora está tudo branco. Estamos dentro de uma nuvem.
Antes falava do amor da minha vida que pegou outro portão de embarque, fez a curva do destino e sumiu pra sempre. Agora está aqui o rapaz do caderninho que, depois de cantar umas coisas, parece estar quase cochilando. É magrinho, tem uma barbichinha e vi que o outro piercing, uma argolinha, é na boca.
As coisas escritas parecem uma lista de tarefas a fazer, misturadas com um roteiro. Agora que prestei atenção (ele realmente está dormindo), escreve também umas coisas em português. Aperto os olhos pra ver se é tudo a mesma letra. Tem a palavra teatro e outras mais. Corpo, açúcar, “Antonieta chegou…”. Quem será Antonieta? Ele parece triste, melancólico, meio perturbado, até. Acordou e olha pra frente do avião com um olhar apertadinho que deixa até ele bonito. Eu puxaria conversa, ofereceria um chiclete (tenho um pra ele), mas parece querer estar sozinho. Mesmo tento acordado e continuado a olhar em volta com os olhos apertadinhos, dá pra perceber que ele não é lá tão aberto.
…voltei a escrever. E o curioso é que ele agora também escreve. Será possível encontrar-se com você mesmo, mas em outro corpo e de outro jeito? Qual o sentido de um rapaz com caderninho na mão sentar do meu lado? E tem os piercings, o jeito de olhar pela janela. É como se carregasse minha melancolia, mas multiplicada. O contra-luz dele é bem bonito. O sol bate na asa que, nesse momento, vira refletor. Assim o sol bate nele por fora e eu observo-o enquanto desenha algumas palavras. Será que pra ele também é curioso me ter ao seu lado? Estaria em alguma linha do seu caderninho? Lhe dei um copo de guaraná, agradeceu. Mas não puxei assunto em espanhol como deveria ter feito logo que percebi seu sotaque. Ofereço agora o chiclete? Se digo “quieres?”, a lo mejor entiende que hablo español. Vi uma interrogação na sua frase. Engraçado, os filmes talvez tenham razão quando montam historinhas-bonitinhas logo nos primeiros fotogramas. A luz por um instante iluminou meu caderno, o avião fez a curva. Quantas histórias não acontecem agora, simultaneamente? E se trocássemos de caderno? Poderíamos inventar qualquer futuro nestas linhas.
Se estivesse na janela, talvez escrevesse outras coisas. Poderia ver a estrada bem miudinha lá embaixo e desenhar coelhos, sorvetes, pessoas, feito nuvem. Talvez lembrasse de alguém, como ele lembra. Repousamos a cabeça quase no mesmo instante. Se trocássemos três palavras, lhe daria meu cartão. “Preparar para o pouso”. Nessa hora a gente escreve depressa, porque temos de botar os cintos. Seria engraçado lembrarmos como começou esta amizade daqui a dez, vinte anos. Uma aeromoça de cabelos cacheados (não se usa mais gel como antigamente ou a webjet é menos opressora?) manda que aperte os cintos. Sem dar nenhum sorriso, fico achando tudo isso muito engraçado. Ela mandou que fechasse a mesinha e ele nem deu cabimento. Deve viajar muito de avião e sabe que é uma grande besteira. Na hora de uma desgraça, a mesinha não faz diferença. Talvez ele esteja realmente lembrando de alguém. “Algo da sentido a mi vida”, escreve. À vida dele, porque a minha não faz sentido algum. Estamos quase tocando o chão.
Pronto. Chegamos.
[Três dias depois, voltei a encontrá-lo pelas ruas de São Paulo. Me deu um sorriso, dois beijos e ficou surpreso porque falo espanhol. Fez uma cara de “pq você não me disse isso antes?”. O nome dele é Santigo e estava ao lado de uma moça de cabelos cacheados].](http://24.media.tumblr.com/tumblr_lbbxg3ti5o1qck1fko1_500.jpg)
![“… Fui educado pela Imaginação,
Viajei pela mão dela sempre,
Amei, odiei, falei, pensei sempre por isso,
E todos os dias têm essa janela por diante,
E todas as horas parecem minhas dessa maneira…”
.[Álvaro de Campos, o Fernando].
…recebi a poesia das suas mãos e lembrei do tempo em que andávamos mais juntos.](http://25.media.tumblr.com/tumblr_lb9yc7JXAj1qck1fko1_500.jpg)
![Não é por tristeza ou falta de esperança. É por saudade antecipada. Nem de ti nem de mim, mas da vida que escorre a passos largos. Nem sei se foi ontem (ou se ainda vai acontecer), mas acordei como quem olha pra trás e sente o cheiro das imagens que ficaram grudadas na pele. É, meu amigo, se até uva-passa, por que o tempo não haveria de passar?
Meus finais de tarde no aterro, a correria no meio do sol quente, os olhos da menina índia (aqueles de jabuticaba, mesmo na terra onde só há caju), o pulo na Barra, os passos na duna. A sombra do Passeio. As mãos da menina, cheias de terra. As histórias talhadas na pele de um senhor que me deu um copo d’água. A rede colorida, as janelas (minhas e da cidade). O banho de piscina, o dia amanhecendo. Os ventos de agosto e os de setembro-outubro-novembro-dezembro. Os meus pés naquela areia preta, os teus na grama.Teus silêncios tão cheios de. As gargalhadas, esse jeito ‘mo limpeza’. Meus silêncios tão cheios de. Os sorrisos.
Inauguro este blog nesses dias de despedida que são todos os dias dessa vida, não se enganem. Na magia do instante congelado mas pulsante, é possível passar os dedos no ar apreendido no 10x15 do retrato. Divido com você, que são vocês, a coleção pretérita e os clicks que ainda virão. Porque o-tempo-passa-o-tempo-voa e na selva existe internet.
A memória, com suas asas de borboleta, ronda sob a pele e pousa com seus pés de elefante.
[…] Esse é o Guilherme, pequeno morador do Bom Jardim, bairro de Fortaleza. Imaginem ou inventem o porquê da escolha. Talvez não tenha. Talvez seja pelo sonho ou pelo ar que entra nos pulmões quando olho pra essa imagem […]](http://25.media.tumblr.com/tumblr_l66pyc99It1qck1fko1_500.jpg)